Lembranças
Era uma igrejinha azul
no meio da cidadezinha.
Para se ir até lá, pisava-se a relva macia,
gostosa, molhada e cheirosa,
iluminada nas gotas de orvalho ao sol, coberta de flores silvestres.
No campanário tosco e silencioso,
paravam as andorinhas no seu descanso,
e nós não parávamos de olhar.
Ah! que inveja sentíamos,
na liberdade do voo
quando se lançavam no espaço
por cima da igrejinha.
Quando íamos até lá,
correndo pela relva macia,
sentindo o vento louco pelo corpo,
fingíamos ser andorinhas
e pensávamos em liberdade!
Conhecem Cãmara dos Lobos?
É lugar de pescadores um tanto perdido na Ilha da Madeira, tem uma ótima “poncha”, um lindo e antigo coreto, muitas flores nas ruas e casas escorregando pelas ladeiras. O mar revolto traz uma paz repentina no embarcadouro e faz repousar os coloridos barcos. Dos lobos marinhos já não há vestígios. Foram para longe, descobriram novas ilhas. Minha sogra alí nasceu, veio para o Brasil e lá nunca mais voltou… ficou para nós a nova descoberta do lugar. Um lugar feito para pensar…
Todos guardamos segredos de outros tempos…
Lembro-me do corredor comprido, talvez o fosse apenas na minha imaginação infantil, porém ele era como um túnel que desembocava na cozinha de minha avó madrinha. Cozinha simples para os padrões atuais, porém de onde saíam os mais deliciosos aromas, que o tempo não me deixou esquecer. Ainda penso nos sorvetes de creme. manga ou abacate guardados na geladeira que só adultos podiam abrir, quando queriam abrir…geladeira enorme que poucos na época podiam ter. E os pedaços de carne macia tirados com o molho da panela, postos no pão e comidos antes do almoço, longe dos olhares severos de minha mãe? Cajá manga? A avó me fez descobrir seu sabor e sentadas sob a árvore do quintal nos fartávamos da fruta até ter indigestão. Adorava a neta e por ela tudo fazia, inclusive escondê-la ao saber que a filha queria colocá-la de castigo. Aromas da infância que cada um lembra de uma forma e com uma cor. Ah! os segredos meus e de minha avó.
Essa pomba é a representação da Ilha da Madeira, pelo menos para mim. Em cada casa mais antiga ela surge nos beirais, imponentes e companheiras. Adorava vê-las; do carro ficava na espreita tentando encontrar alguma nos telhados. Nem todos as tem...o progresso foi tirando a poesia de suas existências. Queria trazer uma para a casa daqui... frágeis, talvez não pudessem aguentar a viagem. Fiquei só no olhar, de criança.
Uma poesia nos leva a encantos e recantos escondidos
Um rio com luar,um pôr do sol,um barco iluminado.
Lembranças projetadas na parede vazia.
Penetrando em olhos saudosos,
de liberdades, de sonhos.
Gente... tentativa de união,
para a lembrança da parede
nao desaparecer.
Mãos que se agarram a ela,
no escuro...
Numa felicidade ansiosa
que foge louca da realidade
quando a luz se acende.
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